Acordei. Mas por cinco minutos
preferi ficar na cama. O dia está frio, é inicio de Julho, dez pras oito, eu
ainda tenho de ir trabalhar e Lucy ainda dorme como um anjo, um anjo gordo, mas
ainda anjo.
Pus o primeiro pé pra fora da
cama, o esquerdo, não acredito em superstições, mas acabei enfiando o pé em um
penico. Comi umas bolachas natalinas mofadas que achei no armário, tomei um
café, me vesti para o trabalho, peguei minha bicicleta velha e saí.
Antes de ir para o escritório,
parei no bar do Jonas pra tomar aquela pinga, ritual feito todos os dias de
santo. Uma nova placa engraçada me dá uma triste noticia: “fiado só amanhã”. Em
todo meu tempo de bar, nunca deixei de pagar por minhas pingas, exceto este
ultimo mês. Mês de vacas magras: mês de cachaça pendurada, contas atrasadas,
punheta e falta de amigos.
O caminho até o escritório é
muito calmo, tem sempre uma senhora molhando as plantas, pela cara dela devem
ser carnívoras devoradoras de humanos, umas crianças jogando futebol na rua,
aquele bêbado dormindo na rua e pssssssssssssssssssss! Um pneu furado. Agora é
ir a péo resto do trajeto. Não sabia que tinha um cachorro nessa rua, e queria
não ter descoberto. Era um desses poodles com cara de gay raivoso, ou “mona
revolts” cachorro de madame.
Pelo fato do Lulu da Rua da
Saudade ter corrido atrás de mim, não cheguei atrasado. Uma manhã perdida,
tempo passando como uma lesma em dia de chuva, tão bom quanto ver os filmes do
Didi e o pior, aquele café gelado com cheiro de sovaco.
Hora do almoço, meu corpo já
estava implorando por um pouco de nicotina e alcatrão. Tem um restaurante na
quadra de cima do escritório, vou fumando no trajeto e sempre encontro um grupo
religioso bradando palavras de ordem á minha pessoa, rogando pragas ao pobre
fumo enrolado, “maldito cigarro!” “cigarro é do diabo!” e por aí vai. No
restaurante como sempre a mesma coisa, arroz, batatas, carne de porco e o meu
favorito: ovos de codorna em conserva! Mas hoje, resolveram fazer uma mudança
no cardápio, trocaram a carne de porco por peixe, as batatas por aspargos e os
ovos por rabanete! Quem em sã consciência come rabanete?
Pago a conta com o ticket
refeição da empresa, são treze horas devo voltar ao inferno, quer dizer,
querido escritório. Como é bom um cigarro depois do almoço... Meu ultimo
cigarro, ponho na boca, acendo, e noto que está ao contrario. Acabei acendendo
o filtro do meu ultimo cigarro, estava prestes a ter um ataque, um surto
psicótico, quando me lembro dos meus chicletes de nicotina, do tempo que
namorei uma estudante de medicina, tinha tentado entrar na geração saúde, mas
um pé na bunda faz tanto mal quanto fumar. Chego em minha sala, abro a gaveta
da bancada e os encontro. Masco quatro de uma só vez. Se você fuma, não tente
parar, esses chicletes tem gosto de merda ao molho rosè.
Meu trabalho é fácil, fico
sentado na minha sala com dois carimbos, um escrito “aprovado” e outro escrito
“negado”. Trabalho numa agencia de empréstimos, se eu achar que é um bom
negócio, eu posso aprovar, isso na teoria, a verdade é que eu ponho alguns na
mesa e faço “minha mãe mandou”. Alguns contemplados vêm me agradecer, e trazem
presentinhos, uma vez aprovei credito pra uma mulher que faz esculturas em
queijo, ela me deu uma de suas obras, um Mick Jagger feito em gorgonzola.
A secretária veio me dizer que
meu chefe quer falar comigo, o que será que eu fiz? Será que não comi a mulher
dele direito essa noite? Oh doce Lucy...
Chego à sala dele, ele com aquela
cara de chefe, sento na sua frente e ele começa a descer-me adjetivos. Ele
revisou os meus créditos aprovados, disse que a guia espiritual dele o mandou
fazer isso, e então tomei na minha linda bunda. Parece que aprovei até crédito
para um louco que fazia calendários de cachorros transando. O resultado foi o
previsto: demissão por justa causa e ainda tive que deixar meu Jagger de
gorgonzola praquele gordo.
Saindo do escritório indo pra
casa, encontro o Lulu de novo, acho que ele gostou do sabor da minha calça, mas
vamos esquecer isso, o que me chamou mais a atenção foi a sua dona, lindos
olhos verdes, cabelo louro, branca como cocaína e alguém me diz o que eram
aquelas curvas... E os freios me deixaram na mão, a cantada de pedir o telefone
do Lulu é cruel, mas o melhor a falar.
Apaixonei-me perdidamente por
aquele par de olhos, até o Lulu eu perdoo por aquela mulher, nunca senti isso
antes, acho que hoje é meu dia de sorte!